O que podemos aprender com o melhor instituto de pesquisa de Israel

Weizzmann

Ricardo Geromel, sócio da StartSe – Muito se discute sobre a importância de excelência acadêmica para a formação de um ecossistema empreendedor maduro. É consenso geral de que o Vale do Silício não seria o epicentro mundial da inovação sem as universidades de Stanford e Berkeley. Israel, que tem como apelido “startup nation” e tem mais startups per capita do que qualquer outro país no planeta, também não teria esse status se não fossem os centros acadêmicos TAU (Tel Aviv University), Technion (a MIT de Israel) e o venerado Instituto Weizmann de Ciência.

A missão StartSe em Israel foi recebida pelo professor Israel Bar-Joseph, Vice-presidente de desenvolvimento de recursos do departamento de matéria física condensada do Instituto de Ciência Weizmann. Também conversamos com uma pesquisadora fazendo sua PhD e com Mr Meir Fast, CFO do Yeda Research & Development, que lidera o braço de transferência de tecnologia do instituto. Basicamente, o que Mr Fast faz é captar investidores para transformar as pesquisas em produtos e repassar royalties das vendas para o Instituto Weizmann.

Eles aprofundaram na importância da pesquisa avançada para a criação de um ecossistema empreendedor e elaboraram na cultura que permite o Instituto Weizmann ser o principal instituto de pesquisa no mundo fora dos Estados Unidos, na frente de instituições como Stanford e Caltech de acordo com o index de inovação da conceituada revista Nature. Acredito que o que eles nos ensinaram pode ser aplicado no seu dia-a-dia e mudar a maneira como você lida com os seus projetos. Mas, antes de compartilhar estes ensinamentos, vou contar-lhes alguns destaques do Instituto Weizmann:

Instituição de pesquisa que mais arrecadou dinheiro no mundo em royalties. Recebeu cerca de US$2.5 bilhões nos últimos seis anos em royalties de drogas desenvolvidas aqui. Mr Fast explicou que se estima que os produtos produzidos pelo instituto nos últimos 6 anos acumularam mais de US$ 200 bilhões em vendas nos últimos 6 anos.

Orçamento de cerca de US$ 500 milhões por ano.

De acordo com ranking recente internacional, entre as 25 drogas blockbusters (“arrasa quarteirões”) que arrecadaram mais de U$ 1 bilhão em royalties, 7 eram afiliadas com o instituto.

Possui mais de 2 mil famílias de patentes.

Mais de 2 mil alunos. Todas as aulas são em inglês.

Distribui mais de US$100 milhões em grants (fundos não reembolsáveis para promover pesquisa) por ano.

O professor Israel Bar-Joseph enfatiza: “Aqui, a ênfase principal, que é quase uma religião, é simples: Tudo depende da qualidade das pessoas! Nós realmente internalizarmos isto e vivemos com as consequências. Nós contratamos quando identificamos uma pessoa excelente. Não há descrições de trabalho, nem cargos, nem áreas especificas. A lógica é que as áreas específicas e as divisões podem morrer ou novas podem florescer. Acreditamos que as pessoas não devem se adaptar ao sistema de gestão da Weizmann. Aqui é o contrário, a administração tem que se adaptar a pessoas excelentes! Não há um conselho de diretores que determinam a agenda do instituto. Aqui é o contrário, nossa gestão é “bottom-up”. Temos orgulho e trabalhamos duro para que as pessoas que estão na base da pirâmide sejam aquelas que decidem os processos e como a gestão do instituto funciona.

Entendemos que as melhores ideias levam tempo. Quanto mais nebuloso um projeto é no começo, o mais empolgado ficamos. Nós somos e queremos ser corredores de maratonas e não de corridas de tiro curto. Então, estruturamos um local onde as pessoas podem pensar e agir no longo prazo. É o oposto da ditadura do próximo trimestre determinada por empresas de capital aberto no mundo capitalista e isso nos dá vantagens e desvantagens. Mas sabemos quem somos e quem não somos. Sabemos que quando conseguimos ter as melhores pessoas e damos as condições para eles focarem no longo prazo, os resultados virão. Não focamos no resultado. Focamos no processo. Não é o número de patentes nem o faturamento que é julgado nas nossas reuniões. Mas sim a qualidade e o rigor da pesquisa. Ao meu ver, o maior erro são os objetivos de curto prazo e a obsessão com o lucro. Se tivermos excelentes pesquisas, tudo dará certo.

Vocês são brasileiros e devem gostar de futebol. Vou usar um exemplo do seu mundo para te falar como pensamos na gestão de pessoas aqui no Instituto. Há dois principais modelos distintos das melhores equipes do mundo: um é o do Real Madrid, que paga caro e compra os melhores jogadores do mundo depois de eles provarem que são craques vestindo outras camisetas. O modelo oposto é o do Barcelona, que pega o talento bruto e jovem, antes mesmo de ser profissional e o coloca em um grupo estrelar. Demora mais para dar resultado, mas nós gostamos de jogar assim e estamos vencendo. O nosso problema é quando a Google ou outros grandes centros querem pagar peso de ouro para contratar nossos craques. Nós ficamos felizes por eles e pelo seu sucesso, mas lutamos para mantê-los por aqui”.

Acho que as provocações que o professor Israel provocou tem implicações para os mais distintos projetos. No mundo está acontecendo uma verdadeira guerra. A guerra pelos talentos. Do Vale do Silício à China, um dos principais desafios para a criação de projetos que impactarão a humanidade é ter talentos. Você não constrói uma empresa, você constrói um time e seu time constrói a empresa. Espero que as sábias palavras do professor podem te ajudar a construir equipes. Então, a próxima vez que encontrar um talento, o que você vai fazer? Tentar trazê-lo para o time ou esperar uma vaga que se encaixe com ele abrir?

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