Gregório Duvivier: o boicote a Israel é uma estupidez

Gregório Duvivier no kibutz Nachson. A primeira parte da frase em hebraico diz: "É possível tornar o impossível possível".
Gregório Duvivier no kibutz Nachson. A primeira parte da frase em hebraico diz: "É possível tornar o impossível possível".

Em entrevista exclusiva à Conib, o humorista e escritor Gregório Duvivier fala sobre sua recente viagem a Israel e territórios palestinos e sobre o movimento de boicote a Israel: “é uma estupidez. A esquerda muitas vezes credita à direita a desinformação, o monopólio da burrice. Como se só houvesse ódio do lado de lá, e desinformação fosse um privilégio da direita. Não é. A esquerda é muito desinformada em muitos assuntos e muito preconceituosa também”. Leia a entrevista na íntegra:

De que forma a viagem a Israel e aos territórios palestinos afetou seu conhecimento e percepção do conflito?
Acho que a importância da viagem foi para mim a de conhecer as muitas narrativas, não binárias, sobre Israel e Palestina. Acho que a tarefa do humorista é fugir do binarismo. O humorista, o escritor, o ator, o artista e o jornalista são pessoas que vão fugir da história única. Me incomoda quando as pessoas negam quaisquer outras versões, então queria conhecer mesmo para fugir desse binarismo.

Você afirmou no simpósio em Jerusalém que o Porta dos Fundos foi criado para falar de religião. Que importância você daria à questão religiosa no conflito israelo-palestino?
Acho que houve algum engano. Não afirmei isso. Foi criado porque queríamos fazer um tipo de humor que envolve também religião, que é um dos muitos assuntos tabus que existem no Brasil. Religião é um grande tabu no Brasil, mas não é o único, claro. A vida política é um tabu. No Brasil, é difícil você rir de política na TV aberta, dando nome aos bois. O Porta dos Fundos sempre gostou de rir dessas proibições. Religião é uma delas: é um grande problema em nosso país, que está muito longe de ser laico, e em Israel também, que sempre misturou, e o governo atual mistura especialmente religião com Estado. Este para mim é o grande perigo que Israel enfrenta hoje: ter um governo fundamentalista. Ataca-se muito o fundamentalismo dos outros, mas eu vejo, no governo atual de Israel, um flerte muito grande do Estado com os argumentos religiosos. Acho que isso é um câncer, um retrocesso. Isso não ocorre apenas entre os muçulmanos, mas também em Israel.

Você também disse no simpósio que sua aproximação com as questões do conflito se deu pela literatura israelense, citando Etgar Keret. Quem lhe indicou a leitura? Escritores como Amós Oz e David Grossman portam há décadas as bandeiras do entendimento e da tolerância e mostram de forma clara a diversidade da sociedade israelense. Acha que eles mereceriam mais visibilidade no Brasil, particularmente na esquerda?
Keret foi indicado pela minha tia Bianca que, aliás, é judia: Bianca Byington. Embora eu não seja judeu, porque ela é de outra parte da família [o avô de Gregorio casou com uma judia em um segundo matrimônio]. Apaixonei-me pelo Keret, é um sujeito com muito humor, muita poesia e conta uma história de um israelense muito diferente do que a gente costuma ouvir.
Amós Oz e David Grossman são dois de quem gosto muito. A literatura, para mim, é a grande chave para você fugir do fanatismo. Tanto é que o Amós Oz tem um livro maravilhoso, na verdade pequeno em tamanho, mas importantíssimo: “Como Curar Um Fanático”. Para mim, a literatura e o humor são as grandes chaves para se conversar com o fanatismo.
Acho que o Brasil precisa muito ler esses autores, porque temos muito fanatismo aqui também. Temos uma república muito cristã, muito contaminada pela religião, e eu acho uma pena, acho que isso tem muito a ver, sim, com nossos problemas ancestrais de machismo, homofobia, transfobia, que atravessam o país. Então, foi fundamental a leitura desses autores, porque falam muito do fanatismo e contra o fanatismo, os três.

Você foi bastante discreto nas redes sociais ao postar sobre a viagem, usando apenas frases e colocações curtas. Houve algum motivo para isso?
Eu evito as redes sociais como lugar de debate. Prefiro fazer debates presenciais ou então por meio de minha coluna na Folha. As redes sociais geram discussões inócuas e intermináveis, que nunca dão em nada. Nunca vi ninguém mudar de opinião por causa delas. Fica uma espécie de guerra de quem tem mais influência, torcida organizada maior. Assim, fujo desse lugar de diálogo.

Em 2016, Jean Wyllys participou deste simpósio em Jerusalém, e parte da esquerda patrulhou-o de forma irada. Nas palavras dele: “O que mais me chocou foi a reação dela à minha presença. Parte se mostrou bastante autoritária, obtusa e irredutível em seus dogmas. Ela não quer compreender a complexidade do conflito Israel-Palestina”. Você compartilha dessa visão?
A esquerda muitas vezes credita à direita a desinformação, o monopólio da burrice. Como se só houvesse ódio do lado de lá, e desinformação fosse um privilégio da direita. Não é. A esquerda é muito desinformada em muitos assuntos e muito preconceituosa também. Me lembra muito a direita, nesse sentido. As coisas que a esquerda refuta na direita. O ponto de vista da esquerda sobre Israel me lembra muito o ponto de vista da direita sobre Cuba, que não admite problematizações.
Então, você fala para alguém de direita que, na verdade, Cuba é uma ditadura, mas uma ditadura que tem conquistas sociais. “Ah, mas como assim?! É uma ditadura, e ponto”. Concordo, claro, que é uma ditadura, mas é importante compreender a complexidade dos lugares. Assim, a esquerda não compreende Cuba também: “Olha que bastião da liberdade, da igualdade!”. Não, é uma ditadura, mas tem mais igualdade do que nos EUA. Então, como lidamos com esse problema? Não sei, mas é um problema. Você tem que admitir que há um problema.
Israel é a mesma coisa: temos que partir do pressuposto que a questão israelo-palestina é um problema, não é algo que se possa resumir em três palavras. Exemplo: o ponto de vista que afirma que “Israel é um Estado que não deveria existir, e o Hamas é libertário, pois faz justiça ao querer acabar com esse crime que é o Estado de Israel” Não. Sou contra esse ponto de vista. Agora, dizer que “o Estado da Palestina não tem direito de existir, e o Mossad e o Exército israelense fazem justiça ao acabar com a Palestina e o Estado Islâmico, que é tudo a mesma coisa”, também não aceito. Não aceito um ponto de vista único sobre essa questão. Não aceito de modo geral, para país nenhum.
O boicote a Israel para mim é uma estupidez tão grande quanto o boicote, por exemplo, aos EUA, que também violam os direitos humanos. O Brasil também viola os direitos humanos, e não estou propondo nem vendo ninguém propor boicote ao Estado brasileiro, porque moram aqui. Acho que a lógica do boicote é muito estúpida.

Duvivier viajou a convite do Instituto Harry S. Truman para o Avanço da Paz, ligado à Universidade Hebraica de Jerusalém, onde deu uma palestra no seminário internacional “Brasil, Israel e Palestina- política, religião e a busca pela paz”.

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