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Crise financeira ameaça memória do Holocausto

arqshoah

Já são 242 longas entrevistas – em geral, colhidas em áudio e vídeo, todas depois minuciosamente transcritas – de quem sobreviveu ao Holocausto e encontrou no Brasil uma nova pátria. Nas gavetas do arquivo, mais de 6 mil fotos desses personagens. Em outras delas, 14 mil documentos, muitos classificados como secretos pelo Itamaraty, resultantes de 30 anos de pesquisa da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, professora da Universidade de São Paulo (USP). Todo esse material vem sendo digitalizado. No núcleo LEER – o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, em uma pequena sala no prédio da História da USP –, pesquisadores e voluntários alimentam o Arquivo Virtual Arqshoah: Holocausto e Antissemitismo. De inegável relevância histórica e social, esse acervo, disponível em http://www.arqshoah.com, corre o risco de ter de interromper suas atividades.

“Este ano foi uma catástrofe”, avalia a professora Maria Luiza, idealizadora e coordenadora do projeto. Catástrofe financeira: a equipe, que já chegou a ter 12 pesquisadores, foi reduzida a cinco bolsistas e três voluntários. As bolsas – duas bancadas por pessoas físicas e outras três pelas instituições judaicas B’nai B’rith e Conib – expiram na virada do ano. O cenário é tão grave que todas as despesas do dia a dia do projeto, de tinta para impressora a verba para deslocamentos para a realização de entrevistas e coleta de material, estão sendo bancadas do bolso dos participantes. “Desde março, fomos obrigados a interromper as gravações dos depoimentos”, afirma a professora, que fez as contas e chegou a um orçamento mínimo necessário para que o Arqshoah siga em funcionamento: R$ 54 mil por mês. “A ideia é tentar conseguir que 30 empresários aceitem contribuir com R$ 1,8 mil mensais ao longo de 2017”. Saiba mais: acesse.

A pesquisa já rendeu livros como “O Antissemitismo na Era Vargas, 1930-1945” (Editora Perspectiva) e “Holocausto, Crime contra a Humanidade” (Editora Ática), entre outros. “Com os testemunhos, consigo reconstituir as informações históricas com uma carga emocional, humana. Com os 14 mil documentos, tenho a versão fria, oficial. Agora é hora de cruzar esses dois pontos”. Nas versões oficiais há outras contas; mais tristes do que a falta de recursos do Arqshoah. Maria Luiza contabilizou todos os relatos de diplomatas brasileiros que indeferiram pedidos de visto para judeus se mudarem para o Brasil – geralmente, dizendo-se “honrados” em comunicar o veto ao governo brasileiro. “Foram 16,8 mil vistos negados”, afirma. São pessoas que poderiam ter se tornado brasileiras, mas muito provavelmente morreram em algum campo de concentração. Nos relatos humanizados, há histórias comoventes de superação. E alguns achados como o mapa desenhado pelo alemão Federico Freudeunheim (1926-2008), detalhando, a seu modo, todo o périplo da fuga da Europa dominada pelos nazistas até a América do Sul. Chamado pelo autor de “Da Minha Velha Terra para A Minha Nova Terra”, o desenho, emoldurado na salinha do LEER, virou cartão-postal distribuído pelo Museu Judaico de Berlim. Fonte: O Estado de S. Paulo. 

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