“Cadernos Conib” lançado em SP – foco no combate à intolerância

Celso Lafer, Fernando Lottenberg, Sergio Malbergier e Akemi Kamimura
Celso Lafer, Fernando Lottenberg, Sergio Malbergier e Akemi Kamimura

A quarta edição dos “Cadernos Conib” foi lançada na Unibes Cultural, em São Paulo, com um debate entre Akemi Kamimura, advogada e mestre em direitos humanos pela Faculdade de Direito da USP, o jurista Celso Lafer e Fernando Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil. A nova edição apresenta uma seleção de escritos focados na promoção da tolerância e no combate à intolerância.

Lottenberg apresentou os diversos temas de que trata a publicação e lembrou importantes ações da entidade dentro dos princípios com base nos quais atua: paz, democracia, combate à intolerância e ao terrorismo, justiça social e diálogo inter-religioso. Ele agradeceu a presença de Mustafa Goktepe, presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia; de Beto Vasconcelos, secretário nacional de Justiça, e de Flavio Rassekh, ativista da causa Bahá’i, que é autor de um dos textos dos Cadernos.

ACOMPANHE O DEBATE

A tolerância
Lafer citou Bobbio para abordar o surgimento do conceito de tolerância, ligado à laicidade e à secularização.
Referindo-se às sociedades compostas por imigrantes, citou Momigliano, para quem o Império Romano foi o único que se colocou como fruto da imigração, por meio da absorção de muitos povos, o que é mostrado em texto clássico de Virgilio, a “Eneida”.
O jurista apresentou também diversos argumentos pró-tolerância, como sua dimensão ética, que vai além das dimensões política e social; e sua dimensão epistemológica: a verdade é múltipla e tem muitas faces.
Mustafá Goktepe, que está no Brasil há três anos, mostrou preocupação com a polarização política e perguntou a Lafer se há risco de intolerância no país.
“A preocupação é legítima, pois adversários viram inimigos”, respondeu o jurista. Ele recomendou a leitura do texto “Elogio do Comedimento”, do cientista político Bolivar Lamounier.

A crise humanitária
Beto Vasconcelos levantou a questão da política do Brasil para os refugiados. Lottenberg respondeu que o país tem sido bastante receptivo, tendo promulgado em 1961 a Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, concluída em Genebra em 1951. Uma nova lei está sendo votada, tendo como relatora a deputada Bruna Furlan, e proposta pelo então senador Aloysio Nunes Ferreira. “Sabemos que hoje há o grande problema da segurança, mas considero que, ainda assim, devemos acolher refugiados de forma corajosa”, afirmou Lottenberg.

Educação para os direitos humanos
Diversas perguntas do público relacionaram-se às ações da SEDH na área de educação, desde a pré-escola, para o respeito ao imigrante.
Akemi respondeu que a Secretaria não tem atribuição especial para lidar com os jovens, mas também pensa ações para o ensino básico. Em 2016, o órgão criou o Pacto Nacional Universitário pela Promoção do Respeito à Diversidade e da Cultura de Paz e Direitos Humanos.

Só a tragédia nos torna irmãos?
Alberto Kremnitzer observou que, após o desastre aéreo com a Chapecoense, brasileiros e colombianos deixaram de ser adversários para serem irmãos. Será que só as tragédias têm o poder de nos impelir para o entendimento?

SAIBA MAIS SOBRE OS “CADERNOS CONIB”
Os temas nos Cadernos Conib nº4 foram agrupados em três blocos: 1) a promoção da tolerância e o combate à intolerância; 2) a intolerância aos refugiados e 3) fanatismo e fundamentalismo.
Estes temas estão intrinsecamente ligados aos princípios com base nos quais a Conib atua: paz, democracia, combate à intolerância e ao terrorismo, justiça social e diálogo inter-religioso.
Nós, judeus, sofremos como nenhum outro povo as consequências devastadoras do ódio e da intolerância e aprendemos a importância inescapável de cultivar a tolerância e o entendimento, depois de tanto sofrimento.
O judaísmo é uma religião que não busca impor seus preceitos a terceiros. Pelo contrário. Vivemos por séculos, e seguimos vivendo, em meio a outros povos e religiões e aprendemos o valor máximo da coexistência pacífica e produtiva.
Boa parte das instituições judaicas no mundo buscam promover o entendimento inter-religioso e combater a intolerância.

Refugiados
O ministro Celso Lafer escreve nos Cadernos:
“Neste mundo, a globalização das emoções, dos ressentimentos e das paixões se conjuga e frequentemente se sobrepõe à razoabilidade dos interesses dos povos e dos Estados (…) Na perspectiva do efeito destrutivo atual dos extremos, que encontra paralelismo no período após a Primeira Guerra Mundial, cabe sublinhar a trágica precariedade que assola a vida de pessoas nas regiões do que pode ser qualificado de o arco da crise”. A jornalista Patricia Campos Mello aborda a situação dos refugiados na Líbia.

Tolerância
O professor Renato Janine Ribeiro examina a evolução da questão da tolerância no pensamento ocidental e o perfil que dela temos hoje. Lelette Couto, coordenadora de Promoção das Políticas de Igualdade Racial da cidade do Rio, nos conta sobre o avanço das discussões sobre a promoção da igualdade racial no Brasil.

Intolerância
Outros autores destacaram o tema da intolerância: “Ela existe e está bem presente entre nós”, diz o rabino Yossi Alpern. “Não a intolerância que surge da experiência negativa, de alguma ameaça ou perigo. Mas a de outro ser que ousa diminuir meu espaço no universo. Intolerância sem causa”.
Ivanir dos Santos diz que “a intolerância religiosa se caracteriza pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar crenças e diversidades religiosas”. Ele analisa casos de intolerância religiosa no Brasil tendo como foco o da menina Kaylane Campos, que em 2015, no Rio de Janeiro, quando tinha apenas 11 anos de idade, levou uma pedrada, por estar trajando vestes religiosas do candomblé. Kaylane foi homenageada por nós, em janeiro de 2016, no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, realizado em Brasília.
O Papa Francisco nos recebeu em 2015, no Vaticano. O encontro foi um marco do trabalho de aproximação que judeus e católicos vêm desenvolvendo no país, ao longo das últimas décadas. Mais recentemente, iniciamos uma aproximação com a comunidade muçulmana.
A CONIB também está presente na SEPPIR – Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, desde a criação da Secretaria, em 2003, com um representante indicado, e apoia esforços do Plano Nacional de Políticas da Igualdade Racial.

Fanatismo
Jaime e Carla Pinsky relatam que “o fanático não tem como aceitar discussões ou questionamentos racionais com relação àquilo que apresenta como sendo seu conhecimento, pois a origem divina de sua certeza não permite que os argumentos apresentados por simples mortais se lhe contraponham”.
O professor Bernardo Sorj acrescenta que “devemos entender o fanático – atual ou potencial -, que habita em cada um de nós. Portanto, a pergunta que devemos fazer é: como cada um de nós pode virar fanático? Isto acontece quando transformamos o ódio numa narrativa”.

Liberdade religiosa
Na visão adventista, escreve Hélio Carnassale, a “principal justificativa para se trabalhar em favor da promoção dos direitos humanos e em defesa da liberdade religiosa, bem como ser a voz dos que não têm voz, defender os indefesos e empreender outros esforços legítimos em favor da humanidade, é a percepção da solidariedade divina para com os seres humanos”.
A Conib atua com força também nesta área: na Câmara dos Deputados, participamos de audiência sobre o Projeto de Lei “Estatuto Jurídico da Liberdade Religiosa”. Junto com a B’nai Brith, apoiamos as ações da OAB pela liberdade religiosa e também no combate à intolerância religiosa na internet.

Oriente Médio
Jerusalém é o centro de inúmeras disputas ao longo da história. Sobre isso, o rabino Nilton Bonder afirma: “Com certeza não existe ícone maior da dificuldade de convivência humana do que a cidade de Jerusalém. O projeto do rei Davi se revelava no nome, Ierushalem, a cidade da plenitude ou a cidade da paz. E o projeto deu certo. Não exatamente por ter trazido paz em sua história, muito pelo contrário, mas por ter sintetizado a dificuldade humana de obtê-la.”
Peter Demant, especialista em questões do Oriente Médio e do mundo muçulmano, relata que, “a maioria dos muçulmanos não é fundamentalista, e a maioria dos fundamentalistas não é terrorista, mas… a maioria dos terroristas é composta por fundamentalistas muçulmanos. E pergunta: A ameaça ao ocidente é universal? Por quê? O que podemos fazer?” E conclui, “A primeira tarefa é entender. O terror jihadista é antiocidental, mas não menos anti-islâmico”.
Conhecedor dos meandros da ditadura iraniana, Flávio Rassekh relata a campanha da comunidade Bahá’i para que a comunidade internacional conheça as políticas discriminatórias adotadas pelas lideranças religiosas do Irã e pressione os aiatolás a respeitar os diretos fundamentais de educação, trabalho e liberdade religiosa dos Bahá’í.
De Israel, Gabriel Holzhacker nos fala da ONG que reúne crianças de diferentes religiões, nacionalidades e culturas em torno da paixão pelo futebol, compartilhada por todos. O projeto Gol da Igualdade participa da construção de uma sociedade melhor em Israel, baseada em valores de respeito, tolerância e convivência.

Ações na Internet
Nosso companheiro Rony Vainzof apresenta nos Cadernos o complexo cenário da internet: “Não somos mais apenas receptores passivos de informação. A participação agora é ativa, individual ou coletiva, impactando diretamente nas relações pessoais e comerciais”. Rony nos fala da proteção democrática do ciberespaço no Brasil e das ações do Comitê Gestor da Internet.
É importante notar que a CONIB participa das ações do Governo Federal no combate à violação de direitos humanos na internet, como, por exemplo, o Programa Humaniza Redes.

Wiesel
Por fim, o jornalista Henrique Veltman nos fala sobre Elie Wiesel, o sobrevivente do Holocausto que foi agraciado com o Nobel da Paz, em 1986, e que faleceu em 2016, aos 88 anos.

Reconhecimento do trabalho
A Conib foi reconhecida oficialmente pelo Governo do Estado de São Paulo como Entidade Promotora de Direitos Humanos, e sucessivamente é procurada pelas instâncias federais e pela sociedade civil como importante protagonista nas causas políticas ligadas a essa questão. Estamos orgulhosos com os resultados já obtidos, ainda que saibamos que existe ainda muita coisa por fazer.
Finalmente, aproveito a oportunidade para destacar que estamos próximos do período de Pessach, a Páscoa judaica. Sempre nos lembramos e contamos a nossos filhos: “Nós que fomos escravos no Egito… nós que fomos estrangeiros.” Como consta do Livro do Êxodo: “Não oprimirás ao estrangeiro, pois conheceis o coração dum estrangeiro, visto que fostes estrangeiro na terra do Egito”. Fotos: Eliana Assumpção.
Vista geral

adidas eqt   | adidas eqt 9317   | adidas eqt adv   | adidas eqt adv 9317   | adidas eqt adv pk   | eqt adv shoes   | eqt adv 93   | eqt adv 9317   | eqt adv black green   | eqt adv pk   | eqt support adv 93   | eqt support adv 9317   | eqt support adv black green   | eqt support adv pk   |